sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Caixa de sapatos.

O que a gente faz quando não pertence?
Hã?
O que a gente faz quando não pertence?
Não pertence a que? onde? como assim?
Você nunca sentiu como se sofresse um pequeno deslocamento que ninguém mais sofreu, com num sonho em que você está prestes, segundos antes de calçar o sapato e seu pé sempre escapa?
Hum?
Eu sou o pé. O sapato o mundo, entendeu?
Você sente que está sempre prestes a entrar no presente mas fica à margem dele, é isso?
É.
Sei como é.
Sabe mesmo?
Na verdade, não.





Você já reparou como as borboletas voam lento sobre as coisas do mundo? Parece que o tempo se dilata, sabe?
É lindo.
Às vezes tenho dificuldade de ser humano.Não entendo os tempos, as pausas, não sei como me portar, o que dizer, o que fazer. Sou o contrário de tudo, às vezes.Então me calo, silencio e ninguém entende nada.
Será que você nasceu pra não viver em sociedade?
Depende do dia.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Qual é mesmo ponto de tudo isso?

Oi
Oi
Tudo bem
Tudo e contigo
Também
(compasso)
Porque você machuca as pessoas
(pausa)
Não é de propósito
Nunca é, mas mesmo assim
Machuquei você
Sim e você sabe
Sinto muito
Não você não sente
Como sabe
Se sentisse você não estaria dizendo que sente entende
Não
Discursos não servem pra porra nenhuma e você sabe disso
É sei
( pausa)
Não queria magoar é que eu sou assim
Posso ver um sorriso sarcástico se montando no seu rosto agora como se dizer isso fosse algum tipo de orgulho
Nossa nem sei porque me dou ao trabalho
Relaxa você não se dá não
Escuta eu não te devo satisfações
Eu não pedi satisfações quem veio com a história do sinto muito foi você lembra
( pausa)
Você se cala ou finge que some toda a vez que quer mostrar superioridade perante alguém mas lhe falta coragem ou repertório ou é só comigo
Eu não preciso disso
É incrível como algumas pessoas se recusam a ler a si próprias e criam uma imagem tão falsa de si que de tanto mentir vira verdade
Você acha que conhece muito da vida ne garota
Um pouco sim
Você é uma criança
Tem uma parte de mim que é criança mesmo eu admito e gosto mas ela não me representa como um todo
( pausa)
Você é uma criança e mimada ainda por cima
Você nem me conhece
Você costuma se aproveitar das pessoas que não te conhecem
Como assim
Você entendeu
Quando um não quer dois não ficam
Sim mas se aproveitar não consiste no ato em si mas sim em suas reverberações
(compasso)
Nossa você deve ter muitos machucados que você nem sabe que tem deve estar com alguma hemorragia em algum pedaço da alma
Poesia barata e falsa
Estou mentindo
Você nem me conhece
Defina conhecer
Pegue um dicionário
Tá vendo é esse o seu problema
(pausa)
As coisas do mundo não se resumem em racionalizações e entendimentos plausíveis e acho que você morre de medo disso
De que
De sentir
Você nem me conhece
Pode até ser mas eu te sinto de uma maneira assustadora e olha que nem te conheço
Me sente
Sim
Como
Já disse não é racional mas já troquei umas palavras com a sua alma ela é bem bonita diga-se de passagem
Você viaja
Que bom pra mim
Você não tem vergonha de ficar falando essas coisas se expondo desse jeito
Vergonha não
Eu posso humilhar você se eu quiser
Só se eu deixar
Você sempre deixa
Não eu me abro e você tem medo e ai se defende e ai me machuca
Medo do que
De gostar do que tem aqui dentro você deu uma olhada não resistiu mas não teve coragem de entrar na caverna com os dois pés não foi
Não posso dar o que você quer eu sou assim
Como você sabe o que eu quero
Tá na cara
Como você consegue enxergar o que eu quero se você tem um espelho na sua frente
Que
Você lembra de alguma coisa relevante que eu te falei
Ah lembro
Diga alguma
Isso não vem ao caso
Lembro do nome do cachorro que você teve na infância
Eu te contei isso
Sim
Ah
Eu procuro sempre olhar pro outro ouvir e você também pena que você nega isso em você e finge que não se importa é engraçado que comigo você não consegue disfarçar sua generosidade você nunca me enganou
Você não sabe o que está dizendo
Não sei mesmo mas sinto
(pausa)
Enfim
Que
Vou me retirar por isso disse tudo isso
Vai se retirar da onde
Da sua vida e retirar você da minha
(pausa)
Porque você não diz logo que não gosta de mim
É necessário
Não
Porque você não diz então que gosta de me ter na manga
Eu nem te conheço
Mas me sente
Não entendo o que você diz
Você não precisa ser assim
Assim como
Faz tempo que eu estou aqui
Precisa ir
Não não foi isso que eu quis dizer não estou me referindo só a conversa de agora mas ao todo mas agora não posso mais estar

Quem sabe a gente um dia se cruza por aí e cola esses montes de fragmentos de nós que estão jogados por aí alguns eu guardei em uma caixinha e coloquei no armário fiquei com dó de jogar fora
Você fala em nós e isso nem existe
Ah não
Não
O que é isso tudo então

(compasso)

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

cantiga de acordar.

Hoje não quero falar, mas sim, ser falada.
( pausa de mil compassos)

Nas profundezas de mim mesma
existem intactos reinos subjacentes.
Histórias inteiras sendo contadas
sem que eu sequer note.
A donzela sem mãos passeia
pelos íngremes campos em busca
de uma pêra.
Um salgueiro dança ao som da Lua
que parece sussurrar Billie Holliday
ao pé do ouvido da floresta encantada.
As folhas voam na trilha de estrelas
que mancham o céu anil.
Queria poder me deitar no extenso gramado de mim
para poder ouvir as minhas histórias desconhecidas
em tempo suspenso.

Boa noite.

domingo, 7 de novembro de 2010

Um dia eu vou estar à toa...

"Façamos de conta no meio da chuva que eu te enxuguei os cabelos, te levei pra cama,te aqueci com abraços, tirei sua roupa devagar, cantei pra te adormecer até o dia seguinte"

Caio F.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

De ilusionista e semeador de sonhos, todo mundo tem um pouco.

Hoje, vou dormir sem calça, pensou.
Quero sentir minha perna no geladinho(da cama recém "aberta") que depois fica morno.
Chorou de felicidade em ser, e só. - riso tímido de canto de boca - e você, já?

Existem preciosos momentos que me fazem perceber ser.
Nesses dias ando pela madrugada a fora na faixa dupla que separa as duas vias da rua, como numa corda bamba, sempre com meu guarda-chuva vermelho em mãos. Fecho os olhos e só abro para ver se a Lua, lá de cima, continua me acompanhado.
Quando se tem essa idade, os desejos mudam. O mundo se expande de uma forma lindamente estranha. As árvores parecem mais retorcidas e verdes, os buracos negros mais fundos e mais convidativos. A paleta de cores é outra. Você é capaz de parar por intermináveis minutos só por que se deparou com um caminho de primaveras magentas que caíram na calçada com o vento forte da nova estação.
(Vez ou outra divirto-me em encontrar novas espécies marítimas na profundidade oceânica de mim. Elas são engraçadas, desengonçadas e disformes! Não sei lidar com elas. Creio que isso, pra minha sorte, nunca terá fim. Desvendar-se é como ganhar um trevo de quatro folhas e depois perdê-lo).

Minha alma é um rebelde sem causa, é aqueles adolescentes revoltados de ingenuidade tão intacta que nem percebem o tamanho da pureza presente em suas utopias buscáveis.
[A beleza está em não se ter o menor controle sobre nada, e acreditar tão profunda e castamente em algo muito maior que você( que é você mesmo na verdade, ou não?), que a vida começa a ter uma magia intrínseca e de repente sinto que tenho novamente 5 anos de idade e brinco com o destino dos habitantes idênticos da pequena cidade que inventei num buraco criado na parede de meu quarto antigo].

E por que não?
E por que não?

As coisas, todas elas, num instante flutuam em câmera lenta e vagam perante meus olhos perplexos para que eu escolha a combinação mais adequada para aquele instante específico, o instante precioso de ser, lembra?
Ah, vai? Existem clichês deliciosos que a gente finge que não gosta, mas no fundo se arrepia todo só de pensar ou relembrar!

Talvez sejam eles, os clichês, que nos impeçam de dar um tiro na cabeça, pensou.
Ei, eu não quero dar um tiro na cabeça!
Isso é porque você tem uma vasta coleção de clichês. Mas vai dizer que você nunca pensou ?, cutucou.
É...uma vez, na hora da passeata das mil coisas em câmera lenta já escolhi uma arma explodindo uma cabeça...Era um imagem de um filme do Tarantino.
Nossa! exclamou.
Mais aí, acabei dando risada, e em vez da morte ganhei outro clichê!
Pois é...mas às vezes a imagem vira dor, ou aquelas cicatrizes invisíveis que agente sempre espera que venha alguém para curar, mas nunca vêm, já que a cicatriz não necessariamente existe, refletiu.
Mas isso também não é outro clichê?
E existe algo que não seja? perguntou.
Acho que não...
(pausa)
Gosto daquele em que o mundo todo para, congela, ou fica todo mundo andando em câmera muito muito lenta e desfocada,e... Ah! todo mundo tem, usa, ou é de um tipo de cor fria ou monótona, menos ela/ele. Ela/ele não é tão chamativa/o assim, mas é. A roupa é simples, mas é a dela/e e isso basta. Ela/e tá ali, fazendo alguma coisa banal em tempo real, como esperar pelo trem ou pelo sinal que está na eminência de abrir. O sinal sempre está na eminência de abrir quando reparamos na rara existência dela/e, e isso nos impede, ainda bem, de chegar a tempo de perguntar...parou.
Perguntar o que?
Ah, sei lá, qualquer coisa como "porque você cheira como a minha infância?", ou "como vivi sem suas cores, que nem sabia que existiam, até hoje?", ou mesmo "porque insisto em escutar a música da cadência de seus passos em meu sonhos se nem ao menos te conheci?", divagou.
Nossa! Você decorou esse clichê todinho?!Já pensou em começar a semeá-lo? Você teria futuro com isso!
É...- riso semi-tímido de canto de boca - acho que já faço isso... Ando por aí semeando imagens falsamente poéticas, (que são as mais verdadeiras, porque são apropriações), de um colorido nada novo, mas que as pessoas esquecem que existe, por isso sentem ao relembrá-los, concluiu.
Isso é bonito.
Pretensioso, não acha? indagou.
Não, na verdade não, sabe porque?
Não,respondeu.
Porque você vive num eterno deslumbrar-se e isso rouba sua pretensão, já que mesmo o que semeia acaba sendo sempre novo para pessoas facilmente impressionáveis como você.
Tem razão, sempre que acendo um fósforo, fico besta!, rememorou.
Não disse?!
(gargalhadas)

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Fundo falso ou aquela rachadura.

Me vejo criando um milhão de desculpas para justificar a minha existência torta, os meus desejos latentes e às vezes infantis, a minha vontade de ser várias e depois voltar a ser uma só. Me vejo tirando entulhos dos armários de anos e percebendo quantas fui e parei de ser, quantas quis continuar sendo e por isso guardei, e quantas preciso deixar de ser para que tantas outras venham.
Lua nova.
Crescer abre um rombo na gente. E desse rombo brotam coisas completamente inesperadas e desconhecidas. Palavras que não existem, comidas que não sei o nome, animais misturados e encantados, florestas inteiras de árvores que falam, e um espelho, rústico e empoeirado que estava guardado ali, ou melhor aqui, dentro há milhares e milhares de anos. Está muito sujo, não enxergo meu reflexo, só um silhueta fraca que poderia ser a de qualquer rascunho de pessoa no mundo( ou fora dele, porque não?).

-Porque você demorou tanto?- pergunto.
(silêncio)
-Porque você demorou tanto?- pergunto novamente.
(silêncio)
-Porque você demorou tanto? - ele retruca.
-Não sei...Havia muitas coisas no buraco, em cima de você, nem sabia que você estava aqui...

Tiro instintivamente as meias do pés e começo e esfregar o espelho, não são suficientes para tirar todo o pó que o recobre, tiro então o vestido e faço o mesmo. Aos poucos começo a ver um esboço....um esboço de mim?
Um esboço de mim!
Como estou diferente, estou....pareço...como estou diferente!
Vejo uma mulher.
Uma mulher de olhos parcialmente inchados e cabelos curtos,
de olhar fixo e penetrante,
De mãos pequenas e sobrancelha grossas.
Um mulher de silêncios esburacados e vazios,
Sem sobreposições, sem muitas cores, sem embaralhamentos e miopias.
Uma mulher por fazer.

A imagem minha refletida então me encara e me digo palavras de Clarice:

-Aguenta eu te dizer que Deus não é bonito. Isso porque ele não é nem um resultado e nem uma conclusão, e tudo que a gente acha bonito é às vezes só porque já está concluído.

Aguento!
Será?
...
Mergulho então dentro de minha alma, através de meus olhos, e por lá submirjo.
É tempo de hibernar-me.

domingo, 11 de julho de 2010

É tempo de maré baixa

Sinto-me evasiva.cansada.não tenho grandes pretensões.olho uma vasta lista vazia de amigos, e sinto-me como a ponta de uma corda bamba.E pra que tanta gente se na verdade não há ninguém.quantas pessoas são necessárias para que se sinta completamente oco e...e quantas são necessárias para que se entenda que se quer ficar só? Com quantos medos se constroe o castelo dos sonhos até que os olhares equivocados o transformem em pedra? Com quantos medos se implode uma alma-pipa? E agora Deus, será que já posso ir morar na minha oca? Sinto falta do meu cavalo alado, os julgamentos cortaram-lhe as asas e ele anda tão triste, tão distante...Volta cavalo, volta! Nossas almas precisam uma da outra! Não sei ser sem cavalgar, fico presa nesse enorme cativeiro de mim, cavando poços com colheres de chá.

Com quantos paus se faz uma canoa furada?