terça-feira, 9 de julho de 2013

Cartas de (des)amor ou Paleontologia-Arqueológica dos amores partidos.

Pesquisadora de mim procuro em meio a ruínas de construções antigas e destroços de ossada submersos – eu sou água e terra- pedaços que me testemunhem o que em mim se uniu ou quis se unir a você.Não consigo me lembrar. Sei bem o que em você se uniu a mim, você viu em mim uma outra possibilidade de você, uma coragem que lhe faltava, cores que você nem sabia que existiam. Eu lembro de tudo que você me disse sobre você, lembro de tudo que você disse sobre mim. Procuro em meio a todos os segredos que nunca te contei.
Existe um buraco bem no meio do precipício, mas só quem pula ou é empurrado pode ver é um pequeno e infinito aspirador de calar-mes... Me perdoa. Ultimamente ando tropeçando em reticências, ando tropeçando em pequenos três pedacinhos de mim por vez.  Me perdoa. Eu nunca confiei em você, eu nunca confiei em ninguém. Aquela coragem que você via em mim, foi você que construiu ali, quer dizer aqui. Você inventou algo em mim e eu acreditei, você acreditou, mas nós sabíamos que estávamos mentindo, sabíamos que você depositou aquela coragem em mim pra que ela não pesasse tanto em você e você não tivesse que assumir o que tanto temia, eu sempre tive tanto medo que você fizesse isso, mas nem disso eu sabia, não sabia que se eu não tivesse recebido com tanta generosidade tudo de incrível e forte que havia em você esse pacote todo seria seu e seria bem maior que o medo.Você encararia com elegância e graciosidade tudo que estava destinado a nós ou me encararia de frente pedindo seu pacote de volta e iria embora de uma vez por todas. Aí sim teríamos algo de verdadeiro e palpável. Tudo que vivemos me parece mais como um sonho que se tem a sensação de muito longo mas que sabemos que durou no máximo dez minutos. Calma, eu não estou desmerecendo o que vivemos, pelo contrário. Sempre fui extremamente platônica, dou muito valor às construções poéticas de universos particulares, sempre gostei de viver mais lá do que aqui, você sabe. Via em você algum tipo de projeto do que achava ser melhor para nós. Quanto tempo será que perdi e te fiz perder sofrendo por uma idealização de você? Talvez todo ele.Tenho saudades do nunca foi. Sempre. Tenho saudades de ter te perdido pelo conflito de interesses, pela discordância do tamanho do nosso futuro castelo, ou em qual lado da nuvem eu deveria dormir ou ainda por qual tipo de molho faríamos para o macarrão, nós teríamos brigado por isso, nós teríamos brigado por muito menos, nos teríamos brigado por algo que existisse de fato e não porque eu sou teimosa e manipuladora de um jeito incrivelmente doce para mascarar o meu medo de conflitos, meu medo de perder o ar – sou água e terra- de um balão que nunca foi cheio, e não porque cansei de esperar algo que nunca viria, não porque eu voltei, não porque eu voltei todas as vezes que você se chutou porta afora - eu estava lá, eu sempre estive lá -  não por amor, mas pra provar que eu estava certa, que eu sabia que você não podia viver sem mim. Você nunca soube disso, nos enganamos direitinho. Talvez até agora você ache que vivemos algum tipo de relacionamento do mundo concreto. Arrogante, sempre fui prepotente, sempre me achei muito especial, achei que tinha vindo ao mundo para fazer a diferença na sua vida e te ensinar o que é o amor. Anjo negro. Nos mostrei o avesso do amor, seu outro lado, suas víceras e tripas, você achava que o amor eram aqueles coraçõezinhos vermelhos.Ninguém gosta de mostrar, nem de ver, as entranhas do que parece doce, mas até aquele momento era o só que eu conhecia dele e continuo achando lindo e extremamente atraente o gosto amargo de seu sangue .Quem teria te mostrado isso? Você na faz ideia do quanto de mim sofreu por sofrer tanto por nós. Lembrei-me agora da primeira e ultima vez que você segurou minha mão em público, tive que achar banal, eu tive que fingir não me espantar para que só você pudesse ter o privilégio de transformar esse momento em uma enorme crise que levou a mais um rompimento, quantos motivos eu não construir e ti fiz abraçar para que alguém ali acabasse logo com tudo aquilo? É claro que aquele alguém nunca podia ter sido eu, sua coragem não era do meu numero, sempre ficou meio folgada em mim. Éramos adolescentes, não? Pergunto-me se algum dia eu terminarei de fazer essa transição para a “vida adulta” ou se sempre darei essa desculpa pra tudo. Pergunto-me o quanto de mim pelo qual você se apaixonou eu tive que matar para que sobrevivesse apenas aquela que era obcecada por você- aquela que você odiava- sobrevivesse. Tudo, eu tive que afogar tudo em mim – sou água e terra- que era meu para poder amar-te daquele jeito, respiro bem embaixo d’água mas confesso que já estava com os pulmões quase completamente cheios de água quando você pisou no meu peito. Obrigada. Aqui eu devo te agradecer, não por ter me feito mais forte porque me propiciou sofrimento e blábláblá, sempre fui boa em ser forte, em escalar o poço com as unhas, o que sempre me faltou foi a fragilidade, ela sempre apareceu em mim como um Ogro desengonçado tentando acariciar uma joaninha. Chorar litros na sua frente e ser sarcástica e vil pela suas costas, fazer ceninhas e escândalos intermináveis, isso sempre foi fácil,isso não é fragilidade é orgulho, esse mesmo que eu sempre digo que não tenho. Docilizar o Ogro para que ele possa trabalhar no circo. Ele não quer trabalhar no circo, ele quer ser bailarino de flamenco. Por mais que eu finja que não sei, eu sei. Você me devolveu aquele ar do balão que nunca havia estado lá. Você fazia aqueles bolas de cristal flutuarem sobre seu corpo e me deixava encantada, você fazia malabares com fogo e eu admirava. Sendo sua espectadora, eu aprendi a ser a minha. Não joguei sua ossada nem os destroços de nossas construções imperfeitas fora, nem nunca vou jogar, eles repousarão sempre no fundo do meu oceano por debaixo da areia fina e branca e podem ser postos a tona sempre que escafandristas se dispuserem e descobrir os tecidos microscópicos do cálcio espesso do amor. Talvez se tivéssemos nos encontrado na superfície marítima e não tentado entender a origem da imensidão do oceano, afundando assim nossas intensidades cada vez mais profundas, não tivéssemos ficado estanques como ancoras cheias de musgo.



[Não se afobe não que nada é pra já, o amor não tem pressa ele pode esperar ( para se deteriorar)]

sábado, 20 de abril de 2013

Vive-te

[ Uma reflexão sobre ser e não ser que fiz aos dezoito anos. E que revi aos vinte. E depois aos vinte e três. E que resolvi postar hoje, aos vinte e cinco.Ela nunca parou de fazer sentido.]



Morrer.



É. É disso que eu preciso. De morrer.



Vida?



Era tudo muito...muito...muito. Ou seria muito pouco? Não queria mais repetir as palavras sem parar até que se tornassem estranhas ao pronunciamento de sua própria voz. Era muito complexa a simplicidade dos inexplicáveis lampejos que cortavam sua alma de quando em quando, durando o exato interminável tempo de um instante. Que começava e terminava bem ali, diante de seus olhos, sem que pudesse captura-los. Tocava-os assim. Mas eles logo escorriam por entre seus dedos e evaporavam.



Tempo?



Porque sabia-se dele apenas que passava. “O tempo passa”, não é? Quem disse? Quem disse que era esse o tempo? Não importa....Aprendia-se o que é tempo pelo movimento dos ponteiros do relógio, pelas folhas do calendário, pela contagem dos anos em coloridas velas reusáveis.

Mas nada tinha o tempo a ver com horas, ou dias ou anos. Concretizou-se algo abstrato ,e se impôs. Não tenho tempo para nada! - lhe diziam. Como se podia não ter algo que já não se tinha antes mesmo de tê-lo perdido? O que sabia é que já havia jogado as horas no lixo a muito...a muito...a muito tempo, por mais irônico que isso pudesse parecer para ela. O tempo não é igual, cada pessoa tem um tempo e cada tempo tem uma pessoa. Mania de quererem (ou seria querermos?) padronizar as coisas!

A falta de palavras que pudessem expressar o tempo a incomodava. Incomodava muito. Porque não existia.



E as palavras?



Aquelas que haviam sempre sido o seu refúgio, o único, voltavam-se agora contra ela por falta de existir. Elas limitavam-na, prendiam-na no previsível, na gaiola de onde sempre fugia para se encontrar com o conforto que a letras a traziam. Traidoras. Até elas, até as palavras haviam-na traído.

Tudo eram todos e nenhum nela e para ela se encaixava perfeitamente, assim como uma multidão que se move pela inércia alheia sem pensar.

“Eu vou, eu quero, eu sou”.

Eles todos repetiam constantemente para si, para não se esquecerem dos motivos. Os motivos. Os motivos. Que eram mesmo os motivos? Quais eram mesmo os motivos? Viver para. Esses eram os motivos. Viver para. Viver para algo. Viver então só é quando existe para alguém ou alguma coisa, viver pra si não se basta, viver é obrigatoriamente recíproco, se você der sorte, senão viver é um eterno amor não correspondido. Haveria sempre aquela saudade do que não existiu. Era assim desde o começo. E quem contestava? Quem contestava, quem contestava, acabava. Porque é esse o questionamento. E é tão vasto quanto é essencial, e por ser essencial não existe. Até o momento em que nasce! E morre. Assim mesmo prematuro, do jeito doído e proibido que nascera.

Queria viver-se a si mesma, apenas isto. Será que era pedir muito? Mas não se sabia viver-se, só matar-se. Não fazia sentido, como pode matar-se sem viver-se antes? Porque não existia. Não era dela porque tudo não podia ser, e a falta do palpável impalpável era infinitamente incomoda. Era esse o infinito dela. O infinito. O inexplicável infinito que fora criado já sem se saber o que era. Cria-se algo do qual não se sabe, nasce algo e não se sabe de onde, vai-se algo e não se sabe pra onde, e some-se também sem saber o que é.

Porque se acontecia sem acontecer?

Porque tudo era? Você não é... Sim, eu não sou. Ela não era, e era puramente isso. Era ser do não ser. Devia ser o que não era, mas era o que não devia, e tudo que queria era dever ser. Não dava, ela já era não ser, é quem não é, nunca poderá ser.

E precisava. Mas ninguém entendia o que era precisar. E precisava, e precisava e precisava e ninguém, nada, ou tudo lhe dava.

As lágrimas brotavam dolorosamente de seus olhos e iam expondo, a cada um delas, seu ser-não-ser que ao sair dela própria iam deixando de fazer parte do seu mim, do seu meu, do seu eu. E extinguiam-se. Ela ia se extinguindo a cada instante que externava. Seu pranto eram seus instantes.

Queria ter-se vivido, só isso, mas nunca ninguém havia querido viver-se, e era assim que não se enquadrava, por ser proibida de saber as regras de seu próprio existencialismo, já que nem ela mesma podia, por falta de existir, cria-las. Vivia-se ela assim, na sobrevida, inserida em seu próprio inexistente contexto(na falta de um real que lhe pudesse acolher). Ela era seu próprio contexto. Ela era seu próprio inexistente contexto. Ela era o instante que acabava sem, e não tinha fim.

Nada era perfeito, nada. Ou seria tudo? Mesmo sem existir o perfeito era. Seu contraponto, o imperfeito também era, mas era um indesejadamente ser, assim como ela. E a falta dessa perfeição lhe fazia falta, existia sem existir de fato.



De fato?



A minoria das coisas existia de fato, mas nem por isso deixavam de existir. Com ela era o contrário, ela existia de fato e assim, deixava de existir.

Cansava-se do cotidiano. Sempre com as mesmas e iguais mudanças imprevistas. Cansava-se de andar sem sentido e sem rumo para chegar sempre no mesmo lugar desconhecido, para o qual nunca queria ir, mas onde sempre acabava por se encolher de joelhos em algum canto. Internando seu não ser, como de costume.

Sua não existência ia deixando de existir, seu pranto secava acusando o que acontecia no seu interior. Era como se os sinais vitais de sua alma estivessem fraquejando e sem forças para continuar qualquer tentativa de entender o que não deveria ser entendido. Mas agora que era perguntado não havia mais volta. Porque não existia. Não existia volta das perguntas sem resposta.





[...]

quinta-feira, 14 de março de 2013

Eu Polifonia



Sinto que a vida acontece plena

Em algum lugar

Recôndito

Dentro de mim.

Posso sentir formas assimétricas

Sobrevoando galerias

De segredos escondidos

Esperando para serem tateados e vividos.

A História inteira da humanidade acontece

Simultaneamente

Nas moléculas do meu DNA

Eu sou a humanidade inteira

Por alguns instantes

Sou infinitos fios interpessoais

Que se conectam

A outros infinitos fios

Dispostos a atravessar-me

Sem medo ou julgamento


Afetos

Afetos

Afetos


[A caverna pulsante foi enfim revelada,

agora a vida é fluxo e tempo dilatado]


...


Mas anda, caminha que o tempo

O tempo é aliado

Que o tempo é o próprio caminho

Que se forma no infinito de nós mesmos.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

O melodioso canto do grilo encarcerado

Toda a minha ludicidade livre do grilo cantor vem sendo achincalhada pelas sandálias de chumbo vestidas nos pés de um enorme gigante. Para fugir de sua mortífera pisada acabei me travestindo de formiga, com uma incomoda e ridícula fantasia um número menor do que eu (era a única que tinha). 
As formigas são mais organizadas, trabalhadoras, traçam planos, conquistam metas, constroem algo palpável, e se esquivam da dança frenética do gigante, agindo como se ele nem existisse, tamanho o perfeito balé que tramaram ancestralmente para esquecerem-se da revigorante dança da morte. Seus ouvidos blindados mal escutam o enorme ruído das sandálias de chumbo. 
Mesmo travestida de formiga exemplar, eu ainda tremo quando os pés de chumbo tocam o chão, e até fico aliviada ao ouvir que o som de suas pesadas e melodiosas batidas ainda estão lá. Nos dois minutos de descanso que tenho por dia (as formigas são incansáveis e perfeitas trabalhadoras exemplares, afinal todo império tem seu preço, né?) ponho minhas patinhas de fora para lembrar do meu verde que tem se tornado tão raro que mal consigo enxerga-lo direito, como um daltonismo a longo prazo (a vida de formiga é sempre tão marrom), e ameaço mexe-las ao som do melodioso batuque, outrora assustador e que hoje me chama para dançar, mas não! Já é hora de voltar para a marcha impecável dos batalhões de formigas sistemáticas. O que existirá para além das sandálias de chumbo? E seu eu fugisse? As formigas certamente notariam, em seu sistema perfeito cada peça é fundamental, e cada grilo que ousa mostrar seu verde é pisoteado pela dança da morte, é posto alí, como uma oferenda e um exemplo para as pseudo-formigas de perninhas verdes. Dentro da roupinha marrom, meu corpo de grilo foi desfigurado para se adequar a ela que tanto me aperta(até hoje), meu pulmão foi comprimindo, a respiração tornou-se curta mas a alma parece ainda querer fugir para dançar o seu vivo verde em campos mais férteis. 

Ah! 

Sem perceber estou dançando em meio a marrom disciplina militar, as trabalhadoras incansáveis assustam-se, e por um precioso minuto param para olhar para minha desengonçada dança, absortas. De olhos fechados sigo dançando em direção ao batuque de chumbo e vou compondo um belíssimo pas de deux com os enormes pés prateados, as formigas soltam um grito abafado de medo e fascinação, enquanto a minha fantasia de formiga vai aos poucos rasgando e se desprendendo do meu corpo desfomre, não tenho mais como fugir, revelei meu verde dançante enfim, e abro os olhos com tamanha felicidade de libertado que me desequilibro e caio de cara no chão. 

Silêncio. 

Levanto-me lentamente e percebo que passei os pés dançantes, eufórica viro o rosto para o lado de lá, para o novo destino, e! 

Deserto. 

A minha frente só areia fina e um grande Sol escaldante sob minha cabeça. Respiro fundo, fecho os olhos e recomeço a minha dança frenética, agora ao som do meu próprio batuque. Resta agora esperar. Vamos ver onde meus pezinhos verdes vão me levar. 

(Vento)

domingo, 14 de outubro de 2012

Preciso de um lugar secreto [ caixas de pequenas ficções]

Não é difícil perder-me. Não aquele perder-se poético do "é preciso perder-se para se encontrar" e blá. É um perder-se esquisito e nebuloso, tipo um buraco negro em forma de aspirador de pó.O peito dói, as ações são evasivas e precárias, como se eu estivesse flutuando inconsciente acima de mim mesma. A gente se entorpece com esse mecanismo maquiavelicamente elaborado e acha estranho e se sente mal quando sem querer nos deligamos dele e temos um brilhante, efusivo e fulgaz lapso de consciência. Aí, aí achamos que estamos loucos, ou que estamos mal e queremos que aquela ensurdecedora consciência real pare! E aí nos entupimos de novo com qualquer mentira enlatada que guardamos num grande estoque protegido por cameras de segurança. Um dia vou contratar um capanga para assaltar esse estoque, só pra ver a minha reação, O que farei sem os meus enlatados? Derrubarei as prateleiras? Roerei as unhas dos pés? Não sei, mas qualquer coisa é melhor do que esse entorpecimento travestido em que vivemos. [ agora me ocorreu: porque usar "nós" ao invés de usar "eu"? Deve ser para me sentir menos sozinha, pra crer, mesmo que de mentirinha, que existem outros como eu. Ou para legitimar o que sinto e escrevo.] Deve ser mesmo muito sozinho depender da aprovação dos outros.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Rainha Elizabeth de calças

Sabe como eu sempre digo que eu sou a última cena do Central do Brasil? Então, penso em quantas vezes não consegui sentir saudades de ninguém por uma saudade profunda que tenho de mim mesma, e uma dor por todas as vezes que acho que não sou suficiente. E aí você vai me perguntar: suficiente pra que? Não sei, suficiente pra qualquer coisa, suficiente pra mim. Suficiente pra ser quem eu tenho que ser, ou quem me alma pede pra que eu seja...Eu sei, você vai dizer que é por causa das cicatrizes todas e por causa do meu estranho senso de proteção que ao invés de me fehcar pro mundo, o que seria mais óbvio já que um corpo machucado não vai querer ganhar mais feridas, me faz abrir-me e entrar no comando de um exército de infinitos soldados imaginários,usando armadura nenhuma. Na mão esquerda seguro apenas um estandarte puído de mim mesma, no qual mal lê-se " em busca da verdade",e levo as profundas linhas entranhas, desenhos de mim, na mão direita.
"Devo servir para alguma coisa afinal" eu penso.

Uma folha roxa brilhante voa em frente aos meus olhos molhados.

"Folhas roxas brilhantes não existem", observo encantada. Uma voz ao longe ( que pouco importa se é de alguém que existe ou não), sussurra:

- Não, você não serve pra nada mesmo. E é aí que mora toda a sua beleza.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A menina e o Caracol

Olá senhor Caracol!
Olá, àlo.
Sabe quanto tempo o Sr.leva?
Levo sotium, menina.
Muitos o que?
Muitos sopmet.
Quantos?
Conte ecov mesma.
Como?
É os acreditar.
Acreditar em que?
( pausa longa)
Não atnaida mais...
Que foi?
Você atse crescendo, é isso.
Não estou!
Está mis.
Para!
Calma, recserc não é ruim.
O senhor não vai mais falar comigo?!
Falarei erpmes. Quem oãn vai falar ogimoc, é você.
Claro que vou! Vou sim!
É a iel natural das sasioc,minha alhif..
O que? Não tô entendendo o que vc diz! Mas que droga!
sueda, ahnim aninem, ieritnes sedaduas, erpmes.
Não vou entender mais o avesso então?
(silêncio)
Hein?!
Responde!!!!

A menina pisa, com toda a força do mundo, com o pé esquerdo descalço no caracol. Seu casco se espatifa em mil pedaço, e seu corpo gosmento se espalha como uma bolha de meleca que se estoura.
Ai!Ai!
A menina salta num pé só e senta-se, impaciente.Cruza a perna esquerda sobre a direta esticada e olha o sangue misturado com uma gosma marrom escorrendo de vários buraquinhos em seu pé, feitos pelos pedaços espatifados da casinha do Senhor Caracol.

Ai, ai! Tá doendo muito, tá doendo! Eca, que nojento! tem uns pedacinhos espetados aqui!Mãe!Oh manhê!

Não havia ninguém, só o eco do seu choro surdo.

( tempo- choro - silêncio - suspiros-pós-choro)

...Entender o avesso irrita, mas matar ele dói, machuca muito. Matei o Senhor Caracol, quem vai ensinar o avesso que se desaprende para as meninas agora?

É, eu também não sei, eu também não sei.

domingo, 28 de novembro de 2010

O que te para?

Acho que funciono no tempo das árvores - pensou enquanto olhava fixa e incredulamente para a copa de um enorme flamboyant plantado no meio da rua.
Quanto tempo será que estou parada aqui? 10, 30, 50 minutos...Não importa. Não faz a menor diferença.
As árvores são seres fascinantes, não acha? Eu poderia passar um vida inteira talvez morando com uma, como se ela fosse uma espécie de esposa. Quando o mundo desaba é só esperar meia noite e correr pro parque. Tiro os sapatos e me deito sobre as enormes raízes da árvore, cujo nome não sei, com os pés e mãos tocando alguma parte dela. Pronto, tudo acalma, tudo para, tudo se dilata.
Você tá falando com quem?
Com quem eu sempre falo quando não há ninguém com quem eu esteja falando.
Você é meio doida, lunática talvez.
Talvez.
Você é um saco de poesia, poeira cósmica, todas as emoções em seus extremos, e toda a natureza do mundo misturados num liquidificador gigante.
Então eu sou um suco não um saco, certo?
Hahahaha, você é engraçada sabia? E olha que eu nem existo.
Claro que existe.
Como sabe?
Não sei. E é justamente por isso.
Você acha que as pessoas entendem suas conclusão?
Acho que não tiro conclusões, me vejo como uma grande questão que é feita de várias questõezinhas em aberto.
Em aberto?
É o que se diz quando algo não está concluído.
Então você também não existe, né?
Pensando por esse viés...

(respiro-suspiro)

Sou um copo.
Colorido ou transparente?
Acho que transparente com desenhos.
E qual é a bebida?
Ué, a bebida é esse suco estranho batido no liquidificador gigante.
Claro!

( pausa)

Você tem rodinhas então?!
Claro né! Sou um copo com rodinhas, senão não ia poder me movimentar pelo mundo.
Uma árvore é um copo parado então.
Acho que uma árvore é uma pirâmide enorme de copos, que nem aquelas que fazem com cartas, com vários tipo de suco diferentes. As árvores são os seres mais sábios do mundo.
Tenho uma avó que é árvore, sabia? Ela me contou como as estrelas ficam presas no céu e qual é o tamanho do infinito que ela mesma mediu!
Como faz para medir?
Isso ela não pode dizer, é segredo das árvores.
Ontem carreguei um bebê árvore nas costas.
Ele chorou muito?
Ela.
Ela chorou muito?
No começo sim, porque não sabia quem eu era, mas depois eu fiz cosquinha na suas folhas e contei histórias sobre os jardins suspensos da babilônia, e ela deu risada!
Disse que você é engraçada!
Depois fui embora.
Deixou ela lá, sozinha?
Claro que não né! Ela foi morar nas costas de outra pessoa, e depois de outra, e de outra.
Ela não tem medo, não fica triste?
Ela não tem medo porque entende que ficar triste é uma coisa boa.
Como?
Porque toda vez que ela fica triste quando alguém vai embora é porque ela gostou muito daquela pessoa.

(bocejo)

As pessoas deviam ser como pássaros, não acha?
Não, elas são muito pesadas para voar.
Será que as pessoas são copos com suco de chumbo?
Algumas, sim.
Um dia, vou construir o maior canudo do mundo, e ele vai sugar todo o chumbo de todas as pessoas e aí todo mundo vai voar!
Hahahahaha!
Que foi?
Vai ser engraçado, um monte de copo voando!
Vai mesmo.
É, vai.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Caixa de sapatos.

O que a gente faz quando não pertence?
Hã?
O que a gente faz quando não pertence?
Não pertence a que? onde? como assim?
Você nunca sentiu como se sofresse um pequeno deslocamento que ninguém mais sofreu, com num sonho em que você está prestes, segundos antes de calçar o sapato e seu pé sempre escapa?
Hum?
Eu sou o pé. O sapato o mundo, entendeu?
Você sente que está sempre prestes a entrar no presente mas fica à margem dele, é isso?
É.
Sei como é.
Sabe mesmo?
Na verdade, não.





Você já reparou como as borboletas voam lento sobre as coisas do mundo? Parece que o tempo se dilata, sabe?
É lindo.
Às vezes tenho dificuldade de ser humano.Não entendo os tempos, as pausas, não sei como me portar, o que dizer, o que fazer. Sou o contrário de tudo, às vezes.Então me calo, silencio e ninguém entende nada.
Será que você nasceu pra não viver em sociedade?
Depende do dia.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Qual é mesmo ponto de tudo isso?

Oi
Oi
Tudo bem
Tudo e contigo
Também
(compasso)
Porque você machuca as pessoas
(pausa)
Não é de propósito
Nunca é, mas mesmo assim
Machuquei você
Sim e você sabe
Sinto muito
Não você não sente
Como sabe
Se sentisse você não estaria dizendo que sente entende
Não
Discursos não servem pra porra nenhuma e você sabe disso
É sei
( pausa)
Não queria magoar é que eu sou assim
Posso ver um sorriso sarcástico se montando no seu rosto agora como se dizer isso fosse algum tipo de orgulho
Nossa nem sei porque me dou ao trabalho
Relaxa você não se dá não
Escuta eu não te devo satisfações
Eu não pedi satisfações quem veio com a história do sinto muito foi você lembra
( pausa)
Você se cala ou finge que some toda a vez que quer mostrar superioridade perante alguém mas lhe falta coragem ou repertório ou é só comigo
Eu não preciso disso
É incrível como algumas pessoas se recusam a ler a si próprias e criam uma imagem tão falsa de si que de tanto mentir vira verdade
Você acha que conhece muito da vida ne garota
Um pouco sim
Você é uma criança
Tem uma parte de mim que é criança mesmo eu admito e gosto mas ela não me representa como um todo
( pausa)
Você é uma criança e mimada ainda por cima
Você nem me conhece
Você costuma se aproveitar das pessoas que não te conhecem
Como assim
Você entendeu
Quando um não quer dois não ficam
Sim mas se aproveitar não consiste no ato em si mas sim em suas reverberações
(compasso)
Nossa você deve ter muitos machucados que você nem sabe que tem deve estar com alguma hemorragia em algum pedaço da alma
Poesia barata e falsa
Estou mentindo
Você nem me conhece
Defina conhecer
Pegue um dicionário
Tá vendo é esse o seu problema
(pausa)
As coisas do mundo não se resumem em racionalizações e entendimentos plausíveis e acho que você morre de medo disso
De que
De sentir
Você nem me conhece
Pode até ser mas eu te sinto de uma maneira assustadora e olha que nem te conheço
Me sente
Sim
Como
Já disse não é racional mas já troquei umas palavras com a sua alma ela é bem bonita diga-se de passagem
Você viaja
Que bom pra mim
Você não tem vergonha de ficar falando essas coisas se expondo desse jeito
Vergonha não
Eu posso humilhar você se eu quiser
Só se eu deixar
Você sempre deixa
Não eu me abro e você tem medo e ai se defende e ai me machuca
Medo do que
De gostar do que tem aqui dentro você deu uma olhada não resistiu mas não teve coragem de entrar na caverna com os dois pés não foi
Não posso dar o que você quer eu sou assim
Como você sabe o que eu quero
Tá na cara
Como você consegue enxergar o que eu quero se você tem um espelho na sua frente
Que
Você lembra de alguma coisa relevante que eu te falei
Ah lembro
Diga alguma
Isso não vem ao caso
Lembro do nome do cachorro que você teve na infância
Eu te contei isso
Sim
Ah
Eu procuro sempre olhar pro outro ouvir e você também pena que você nega isso em você e finge que não se importa é engraçado que comigo você não consegue disfarçar sua generosidade você nunca me enganou
Você não sabe o que está dizendo
Não sei mesmo mas sinto
(pausa)
Enfim
Que
Vou me retirar por isso disse tudo isso
Vai se retirar da onde
Da sua vida e retirar você da minha
(pausa)
Porque você não diz logo que não gosta de mim
É necessário
Não
Porque você não diz então que gosta de me ter na manga
Eu nem te conheço
Mas me sente
Não entendo o que você diz
Você não precisa ser assim
Assim como
Faz tempo que eu estou aqui
Precisa ir
Não não foi isso que eu quis dizer não estou me referindo só a conversa de agora mas ao todo mas agora não posso mais estar

Quem sabe a gente um dia se cruza por aí e cola esses montes de fragmentos de nós que estão jogados por aí alguns eu guardei em uma caixinha e coloquei no armário fiquei com dó de jogar fora
Você fala em nós e isso nem existe
Ah não
Não
O que é isso tudo então

(compasso)

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

cantiga de acordar.

Hoje não quero falar, mas sim, ser falada.
( pausa de mil compassos)

Nas profundezas de mim mesma
existem intactos reinos subjacentes.
Histórias inteiras sendo contadas
sem que eu sequer note.
A donzela sem mãos passeia
pelos íngremes campos em busca
de uma pêra.
Um salgueiro dança ao som da Lua
que parece sussurrar Billie Holliday
ao pé do ouvido da floresta encantada.
As folhas voam na trilha de estrelas
que mancham o céu anil.
Queria poder me deitar no extenso gramado de mim
para poder ouvir as minhas histórias desconhecidas
em tempo suspenso.

Boa noite.

domingo, 7 de novembro de 2010

Um dia eu vou estar à toa...

"Façamos de conta no meio da chuva que eu te enxuguei os cabelos, te levei pra cama,te aqueci com abraços, tirei sua roupa devagar, cantei pra te adormecer até o dia seguinte"

Caio F.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

De ilusionista e semeador de sonhos, todo mundo tem um pouco.

Hoje, vou dormir sem calça, pensou.
Quero sentir minha perna no geladinho(da cama recém "aberta") que depois fica morno.
Chorou de felicidade em ser, e só. - riso tímido de canto de boca - e você, já?

Existem preciosos momentos que me fazem perceber ser.
Nesses dias ando pela madrugada a fora na faixa dupla que separa as duas vias da rua, como numa corda bamba, sempre com meu guarda-chuva vermelho em mãos. Fecho os olhos e só abro para ver se a Lua, lá de cima, continua me acompanhado.
Quando se tem essa idade, os desejos mudam. O mundo se expande de uma forma lindamente estranha. As árvores parecem mais retorcidas e verdes, os buracos negros mais fundos e mais convidativos. A paleta de cores é outra. Você é capaz de parar por intermináveis minutos só por que se deparou com um caminho de primaveras magentas que caíram na calçada com o vento forte da nova estação.
(Vez ou outra divirto-me em encontrar novas espécies marítimas na profundidade oceânica de mim. Elas são engraçadas, desengonçadas e disformes! Não sei lidar com elas. Creio que isso, pra minha sorte, nunca terá fim. Desvendar-se é como ganhar um trevo de quatro folhas e depois perdê-lo).

Minha alma é um rebelde sem causa, é aqueles adolescentes revoltados de ingenuidade tão intacta que nem percebem o tamanho da pureza presente em suas utopias buscáveis.
[A beleza está em não se ter o menor controle sobre nada, e acreditar tão profunda e castamente em algo muito maior que você( que é você mesmo na verdade, ou não?), que a vida começa a ter uma magia intrínseca e de repente sinto que tenho novamente 5 anos de idade e brinco com o destino dos habitantes idênticos da pequena cidade que inventei num buraco criado na parede de meu quarto antigo].

E por que não?
E por que não?

As coisas, todas elas, num instante flutuam em câmera lenta e vagam perante meus olhos perplexos para que eu escolha a combinação mais adequada para aquele instante específico, o instante precioso de ser, lembra?
Ah, vai? Existem clichês deliciosos que a gente finge que não gosta, mas no fundo se arrepia todo só de pensar ou relembrar!

Talvez sejam eles, os clichês, que nos impeçam de dar um tiro na cabeça, pensou.
Ei, eu não quero dar um tiro na cabeça!
Isso é porque você tem uma vasta coleção de clichês. Mas vai dizer que você nunca pensou ?, cutucou.
É...uma vez, na hora da passeata das mil coisas em câmera lenta já escolhi uma arma explodindo uma cabeça...Era um imagem de um filme do Tarantino.
Nossa! exclamou.
Mais aí, acabei dando risada, e em vez da morte ganhei outro clichê!
Pois é...mas às vezes a imagem vira dor, ou aquelas cicatrizes invisíveis que agente sempre espera que venha alguém para curar, mas nunca vêm, já que a cicatriz não necessariamente existe, refletiu.
Mas isso também não é outro clichê?
E existe algo que não seja? perguntou.
Acho que não...
(pausa)
Gosto daquele em que o mundo todo para, congela, ou fica todo mundo andando em câmera muito muito lenta e desfocada,e... Ah! todo mundo tem, usa, ou é de um tipo de cor fria ou monótona, menos ela/ele. Ela/ele não é tão chamativa/o assim, mas é. A roupa é simples, mas é a dela/e e isso basta. Ela/e tá ali, fazendo alguma coisa banal em tempo real, como esperar pelo trem ou pelo sinal que está na eminência de abrir. O sinal sempre está na eminência de abrir quando reparamos na rara existência dela/e, e isso nos impede, ainda bem, de chegar a tempo de perguntar...parou.
Perguntar o que?
Ah, sei lá, qualquer coisa como "porque você cheira como a minha infância?", ou "como vivi sem suas cores, que nem sabia que existiam, até hoje?", ou mesmo "porque insisto em escutar a música da cadência de seus passos em meu sonhos se nem ao menos te conheci?", divagou.
Nossa! Você decorou esse clichê todinho?!Já pensou em começar a semeá-lo? Você teria futuro com isso!
É...- riso semi-tímido de canto de boca - acho que já faço isso... Ando por aí semeando imagens falsamente poéticas, (que são as mais verdadeiras, porque são apropriações), de um colorido nada novo, mas que as pessoas esquecem que existe, por isso sentem ao relembrá-los, concluiu.
Isso é bonito.
Pretensioso, não acha? indagou.
Não, na verdade não, sabe porque?
Não,respondeu.
Porque você vive num eterno deslumbrar-se e isso rouba sua pretensão, já que mesmo o que semeia acaba sendo sempre novo para pessoas facilmente impressionáveis como você.
Tem razão, sempre que acendo um fósforo, fico besta!, rememorou.
Não disse?!
(gargalhadas)

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Fundo falso ou aquela rachadura.

Me vejo criando um milhão de desculpas para justificar a minha existência torta, os meus desejos latentes e às vezes infantis, a minha vontade de ser várias e depois voltar a ser uma só. Me vejo tirando entulhos dos armários de anos e percebendo quantas fui e parei de ser, quantas quis continuar sendo e por isso guardei, e quantas preciso deixar de ser para que tantas outras venham.
Lua nova.
Crescer abre um rombo na gente. E desse rombo brotam coisas completamente inesperadas e desconhecidas. Palavras que não existem, comidas que não sei o nome, animais misturados e encantados, florestas inteiras de árvores que falam, e um espelho, rústico e empoeirado que estava guardado ali, ou melhor aqui, dentro há milhares e milhares de anos. Está muito sujo, não enxergo meu reflexo, só um silhueta fraca que poderia ser a de qualquer rascunho de pessoa no mundo( ou fora dele, porque não?).

-Porque você demorou tanto?- pergunto.
(silêncio)
-Porque você demorou tanto?- pergunto novamente.
(silêncio)
-Porque você demorou tanto? - ele retruca.
-Não sei...Havia muitas coisas no buraco, em cima de você, nem sabia que você estava aqui...

Tiro instintivamente as meias do pés e começo e esfregar o espelho, não são suficientes para tirar todo o pó que o recobre, tiro então o vestido e faço o mesmo. Aos poucos começo a ver um esboço....um esboço de mim?
Um esboço de mim!
Como estou diferente, estou....pareço...como estou diferente!
Vejo uma mulher.
Uma mulher de olhos parcialmente inchados e cabelos curtos,
de olhar fixo e penetrante,
De mãos pequenas e sobrancelha grossas.
Um mulher de silêncios esburacados e vazios,
Sem sobreposições, sem muitas cores, sem embaralhamentos e miopias.
Uma mulher por fazer.

A imagem minha refletida então me encara e me digo palavras de Clarice:

-Aguenta eu te dizer que Deus não é bonito. Isso porque ele não é nem um resultado e nem uma conclusão, e tudo que a gente acha bonito é às vezes só porque já está concluído.

Aguento!
Será?
...
Mergulho então dentro de minha alma, através de meus olhos, e por lá submirjo.
É tempo de hibernar-me.

domingo, 11 de julho de 2010

É tempo de maré baixa

Sinto-me evasiva.cansada.não tenho grandes pretensões.olho uma vasta lista vazia de amigos, e sinto-me como a ponta de uma corda bamba.E pra que tanta gente se na verdade não há ninguém.quantas pessoas são necessárias para que se sinta completamente oco e...e quantas são necessárias para que se entenda que se quer ficar só? Com quantos medos se constroe o castelo dos sonhos até que os olhares equivocados o transformem em pedra? Com quantos medos se implode uma alma-pipa? E agora Deus, será que já posso ir morar na minha oca? Sinto falta do meu cavalo alado, os julgamentos cortaram-lhe as asas e ele anda tão triste, tão distante...Volta cavalo, volta! Nossas almas precisam uma da outra! Não sei ser sem cavalgar, fico presa nesse enorme cativeiro de mim, cavando poços com colheres de chá.

Com quantos paus se faz uma canoa furada?

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Filosofia barata de buteco

Num dia de nostalgia como hoje, me pego pensando sobre a saudade. O que é isso afinal? Sentimos saudades do que? Ela por exemplo, só me procura quando precisa de mim, quando está sem chão ou algo sim, e é só. Não é saudade de saber como eu estou, ou apenas saudade de mim, mas sim do que eu representei ou represento ainda...
Existe alguma saudade que não seja assim?
Existe alguma saudade genuína, e por genuína entenda: saudade de te ver ser, estar e só.
Creio ser impossível, ou talvez, pouco provável.
Poucas coisas há não mundo que não envolvam algum tipo de interesse. Temos saudades do que já precisamos um dia, ou do que ainda precisamos hoje, e como não conseguimos ter saudade do que falei porque isso não existe, associamos a necessidade com a pessoa que a preencheu, tentou, ou está preenchendo mas não aparece a um tempo( 30 mimnutos, 1 dia, 4 meses.isso é relativo.como tudo, aliás).
Saudade então pode ser traduzida como " a falta que você me faz" ou " quando vc não está, fica faltando um pedaço". Pois é, atpe chegar outra pessoa que o preencha, ou talvez isso não aconteça nunca e vc fica com a famosa " saudade do que não existiu".
De um jeito ou de outro, eu não gosto disso porque me soa oportunista, e talvez seja por isso que eu tenha tanta dificuldade em sentir saudade ou em responder " eu também" quando alguém diz que está, não que eu tenha atingido a iluminação e não sinta a saudade com a qual me revoltei acima, é só que falta mesmo eu conto nos dedos às vezes que já senti...Tenho percebido cada vez mais que somos sim seres essencialmente solitários, e que procuramos sempre em vão alguém que entre na nossa alma e traduza para nós o que se passa nessa infima complexidade que é o ser humano. Quero inventar um nova palavra para "queria agora poder te ver ser, mas você não está por perto". Talvez essa palavra seja mesmo saudade, nós é que a desviamos de seu real significado por conta da eterna carência que é ser.

domingo, 16 de maio de 2010

A Hermitã

Tem vezes que eu me doo muito. è uma dor profunda, quase ancestral, vem bem do fundo de algum dos poços escuros que se escondem dentro de mim. Cada lágrima um fanstama exorcisado, um abandono que volta.
Abandono.
Talvez em cada um desses meus poços escuros haja uma meninha orfã escondida. Talvez eu chore por elas. Talvez por mim, ou por nós. Ou pelos grandes espaços vazios ocupados por infintos gritos retraídos que esperam para de algum forma serem libertos.
Há tantos mares, tantas grutas, tantos medos. E há também espelhos que refletem as imagens de mim pra mim, só pra eu não esquecer, não esquecer nunca de onde eu vim, e que todas as escolhas tem um peso. Peso esse que não levo nas costas, mas que faço questão de ninar no colo como a primeira vez que se nina o primeiro filho.
Assim frutifico.
E dessa árvore de mim saem galhos, muitos galhos, e deles nascem músicas, deles nascem gritos, deles às vezes só nascem folhas, surpreendentes folhas verdes que me lembram que sou. E só.
Só estou,
Sempre sou,
Sempre estou,
Só.
Só como uma grande cerejeira de muitos anos que as vezes se enfeza e não quer dar cerejas porque não quer se desfazer delas depois.
Ninguém é substituível.
O corpo marca. Cada traço e diferente do outro por mais que o mesmo traço.
Complexas, complexas palavras, complexos sentimentos, complexos eus. Complexas efemeridades desconexas.
Dentro de mim faz frio, muito frio.

[ talvez dentro de cada uma de nós haja um flor de aço]


Dentro de mim eu nasço.
Dentro de mim eu voo.
Quanto mais pro infinto vou, mas infinito acho.
Quantos tons de cinza a vida deve ter?
Estão nascendo espçaos em mim, espaços disfromes
Espaços de cinza
Espaços de cores
Ocupem me!
Ocupem me de flores!
Inteira de flores que as flores são simples!
Que flores são simpls,
que as flores são plenas.

[ É preciso comer. Não só de poesia se vive.]

Comer pó
e cinza.
Beber sangue.
Comer tinta
e dores.

Acho que estou com medo. De mim.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

palhaço da nuvem negra

deixa eu brincar de ser feliz,
deixa eu pintar o meu nariz...

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Esboço dos sonhos.

Quando se olhava os dois daquele jeito, parecia até que havia uma comunicação telepática entre aqueles corpos lânguidos deitados no sofá. Pareciam escorrer pelo sofá vermelho-encardido, como os vermes quando se escoram, fugidos de algum predador aéreo.

Guilherme, que horas são hein?!
Shhh!!!- olhando a tv- Ela tá prestes a responder a última pergunta!

Era a pergunta de um milhão de reais que a senhora gordinha de cabelos vermelhos tingidos deveria responder para que aquela hora se tornasse a hora da transformação da senhora gordinha de cabelos vermelhos em "não me chamem mais assim!agora tenho um milhão!"

Guilherme ansiava por aquele momento, o momento em que testemunharia algum tipo de mudança, que não fosse a do sabor do salgadinho que enfiava na boca nas tarde em frente à tv.

Sério meu!Que horas são? Olha aí vai, tô com preguiça de levantar...
Porra Yara! Concentra, ela tá prestes a ganhar um milhão!
Meu, se nem conhece a velha!
Não interessa! Podia ser você lá, ou eu....

Guilherme então imaginou-se do outro lado da tela, vestido em uma enorme saia marrom-sem-gra-ça, com um camisa florida enfiada para dentro dela. No rosto, em cujo as bochechas se destacavam pelo excesso de blush, um óculos grande e redondo de aro transparente - seria miopia, ou vista cansada?- nos pés, um par de sapatos bege com salto baixo, nos dedos um anel de brilhante falso e a aliança do falecido na mão esquerda. Imaginou o suor correndo sobre a maquiagem impermeável. No peito as batidas fortes da esperança de finalmente ser alguém.
Imaginou-se então, ainda como a velha, sentado no meio da sala de uma apartamento enorme e cheio de móveis coloniais e fotos do que já foi, em cores pálidas. Um grande apartamento enorme de vazios, de espaços cheios de ar e poeira que a faxineira limpava uma vez por semana. Tentou imaginar porque ele, como velha, abria os olhos todos os dias pela manhã...
Para ganhar um milhão!- pensou.

Pronto, ela perdeu, agora você pode me dizer que horas são?
Ahn?! Ah... o que?
Ela perdeu, respondeu errado, você não tava prestando atenção?
Nossa, viajei...São 12:30...
Porra...tô atrasada!

As paredes da casa então foram desaparecendo, as fotos, a poeira, o vazio. As roupas foram também sumindo. A peruca vermelha arrancada. Os anéis evaporados, e ele era novamente Guilherme no sofá com um saco de salgadinhos vazio na mão.
Restava-lhe no entanto no peito um coração. Aquele coração cujas batidas ele conhecia bem. Seriam aquelas batidas dele ou da velha? Ou será que dividiam, os dois, as mesmas batidas? Ou até o mesmo coração?

Porque acordo todos os dias de manhã?

Não havia ninguém, Yara tinha escorregado para fora do sofá, como um verme seguindo seu irremediável destino, o que deu a Guilherme até um certo alívio.

Porque acordo todos os dias de manhã?

Olhou a tv por um instante e pensou que certamente a produção do programa havia de dar um presente para a velha, um prêmio de consolação, mil reais que fosse, alguma coisa pelo menos.
No seu rosto então um sorriso aliviado se formou, por conta da mentira que acabara de inventar a ele mesmo, e com a qual havia ele enganado a si próprio.
Pronto, agora podia mudar de canal.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Será que chovo tanto no molhado?

Um dia, há uns 2 anos, brincávamos de " se ela fosse ....( complete como quiser), o que seria?"


- A Mafe, se fosse uma placa...seria...seria...?

-...

- Seria: Cuidado, pista escorregadia.